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A escola — e não o homeschooling — como principal agente propagador da submissão ideológica e da intolerância

Um dos mitos mais comuns em relação o homeschooling é que ele enfraquece a formação para a democracia, que envolve participação e respeito à diversidade. O argumento parte da premissa de que isso só é possível quando as pessoas agem com autonomia. Tal autonomia deve ser adquirida através de uma educação que permita e estimule que cada um transmita e defenda seus próprios valores políticos e crenças e que também seja capaz de considerar os argumentos fundamentados dos que pensam de forma diversa.

Daí, falaciosamente, se deduz que, como crianças educadas fora da escola supostamente são privadas do convívio frequente com pessoas que têm valores e crenças diferentes dos de seus pais, essa formação para a democracia não pode ser construída. À falta de referências diversas, ainda que essa não seja a intenção dos pais, essas crianças restam ‘doutrinadas’ e não aprendem a pensar por si mesmas; ou seja, não têm autonomia. Além disso, tendem a temer o “diverso”, levando-as a comportamentos intolerantes às ideias que não tenham como base os valores aprendidos com seus pais. 

Primeiramente, a ideia de que homeschoolers não socializam também é um mito, mas este será tema de outro artigo. Por hora, me dedicarei à suposta superioridade do ambiente escolar em promover a autonomia do pensamento e a tolerância à diversidade. Para isso, consideremos então o contexto brasileiro e a nossa Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que obrigatoriamente deve fundamentar 100% dos currículos das escolas públicas e privadas. É ela também que direciona os conteúdos dos livros didáticos adotados. Se antes, a doutrinação “progressista” imposta nas escolas não tinha uma orientação oficial do Estado, desde de 2017, com a homologação da BNCC, tem.

Na verdade, o problema é bem mais antigo. Desde 1998, temos o Enem, que sempre direcionou o currículo do Ensino Médio segundo este mesmo viés ideológico. Ainda antes da criação do Enem, os currículos das escolas já eram ideologicamente unidirecionados. Isto porque a doutrinação baseada em ideias de esquerda há muito fundamentam política e filosoficamente a quase totalidade dos currículos de formação docente.

Aliás, o proeminente Paulo Freire, sempre presente nesses currículos, autor de um livro curiosamente chamado ‘Pedagogia da Autonomia’, candidamente expressou em sua obra mais conhecida, ‘Pedagogia do Oprimido’, o que ele entende por ‘autonomia’: “Enquanto o sectário de direita, fechando-se em ‘sua’ verdade, não faz mais do que o que lhe é próprio, o homem de esquerda que se sectariza e também se encerra é a negação de si mesmo”. Ou seja, para ele, pessoas pobres e ignorantes que seguem os caminhos de sua própria escolha — e não os que ele prega nos seus livros — são sectárias e negam a si mesmas. Aparentemente, agir com 'autonomia’ é concordar, sujeitar-se à visão de mundo do autor reverenciado nos currículos docentes. E que visão de mundo é essa e qual o papel do educador nesse contexto? Em seu livro, ‘Educação e Mudança’, ele explica: “Numa sociedade de classes toda educação é classista. E, na ordem classista, educar, no único sentido aceitável, significa conscientizar e lutar contra esta ordem, subvertê-la.” (grifos meus). Aceitável por quem? Claramente por ele e por todos os que julgam que a “sociedade de classes” — a sociedade capitalista — precisa ser combatida através da educação. No seu dialeto pedante, o que ele diz é que o papel do professor é o de agente doutrinador na luta contra o capitalismo, ironicamente, o único sistema onde a democracia avançou. 

Some-se a esse tipo de defesa da “autonomia”, a perspectiva identitária, igualmente autoritária, e, acima de tudo, anti-científica de autores pós-modernos cada vez mais prevalente nos currículos docentes. O resultado desse ‘ordenamento doutrinário’ da escola e do que a envolve, construído através dos anos e imposto pelo Estado, está muito longe de promover a autonomia. Hoje, nas escolas, o acesso à diversidade verdadeiramente relevante — que é a do pensar — raramente é a rotina. Para dizer o mínimo. A visão “progressista” é a que prevalece nas secretarias estaduais e municipais de educação, nos sindicatos dos educadores e nas poderosas ONGs educacionais que flutuam ao redor dessas estruturas e se alimentam justamente do nosso fracasso educacional.

Ao contrário da população de homeschoolers, que vem crescendo, mas ainda é ínfima, o número de estudantes afetados por esse descalabro é da ordem dos milhões. Cerca de 50 milhões de estudantes em escolas brasileiras são reféns desse sistema que se pretende promotor da autonomia e da diversidade. Nos currículos de História e Geografia, por exemplo, as influências e efeitos de importantes fatos políticos e econômicos sobre as circunstâncias que hoje vivemos no Brasil e no mundo são apresentadas a partir de uma única perspectiva identitária, coletivista e profundamente anti-humana. Outro caminho da escola brasileira, de efeitos tragicamente nefastos é o da alfabetização, que baseia-se em verborragia ideologicamente carregada ao invés de fundamentos cientificamente reconhecidos e adotados há décadas e com sucesso em outros países. Essa escolha ideológica, que supostamente serviria para desenvolver o pensamento crítico das crianças, só tem conseguido empurrar nosso índice de analfabetismo funcional para um buraco cada vez mais fundo.
 

Como esperar visão crítica de quem não aprendeu a ler ou a calcular um percentual? Como esperar o aprendizado da autonomia para a democracia quando um único viés político-ideológico permeia a base de todos os processos pedagógicos? A verdade é que a escola é cada vez menos o locus da diversidade do pensar e claramente não serve como contra-ponto à doutrinação à que supostamente os homeschoolers são submetidos. Ficamos a imaginar até que ponto tudo isso, inclusive as críticas ao homeschooling, são obra do “acaso” ou se há intenção, má fé mesmo.

Por outro lado, há dados consistentes em defesa dos homeschoolers. Os dados vêm basicamente de pesquisas americanas, onde há o maior percentual de homeschoolers. Além da superioridade acadêmica, um estudo (1) rigoroso traz conclusões bastante tranquilizadoras para aqueles que temem que as pessoas educadas em casa, mesmo em um contexto religioso, tendam a ser intolerantes e pouco afeitas a exercer sua cidadania. O estudo conclui que, ao contrário de reduzir a tolerância política entre estudantes conservadores e religiosos, o homeschooling está associado à mais tolerância e respeito à diversidade — características normalmente presentes naqueles que exercem sua cidadania, respeitando processos democráticos. Podemos extrapolar esses resultados para o Brasil? Só saberemos quando tivermos material suficiente para pesquisar aqui, o que só acontecerá quando o homeschooling sair do limbo jurídico.

Concluo sugerindo que aqueles que desejam de fato garantir que crianças e jovens aprendam a exercer sua liberdade de escolha e ser tolerantes com a dos outros deveriam se questionar até que ponto escolhas ideológicas, morais e religiosas são verdadeiramente possíveis no âmbito da escola pública que, forçosamente, deveria atender a todos de maneira uniforme, neutra. Talvez também devessem prestar atenção a quem realmente tem fomentado antagonismos, ao invés de coesão social, e a intolerância, ao invés do respeito ao diverso, como por exemplo, àqueles que escolhem o homeschooling. Que observem quem de fato tem dificultado a autonomia do pensamento de crianças e jovens. Não são os pais.
 

(1) CHENG, Albert. Does Homeschooling or Private Schooling Promote Political Intolerance? Evidence from a Christian University. Journal of School Choice: International Research and Reform, Vol 8 No 1, (2014): p. 49–68.

Por
Anamaria Camargo

Mestre em Educação pela Universidade de Hull, programa no qual atuou como professora durante nove anos. Consultora e ativista em prol de políticas educacionais liberais. Autora de livros e artigos sobre Educação e Liberalismo.