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Até quando seremos reféns dos sindicatos docentes?

Assim com no Brasil, nos Estados Unidos, os sindicatos docentes estão atuando fortemente para que seus filiados continuem sendo pagos por serviços que não estão prestando.

 

Alguns exemplos de episódios recentes:

 

- Em um distrito de Idaho, estado onde a greve de professores públicos é ilegal, um sindicato local resolveu promover uma greve disfarçada. Na véspera do dia determinado para a volta às aulas presenciais, cerca de 500 professores fizeram a gracinha de ligar para a escola e avisar que não poderiam dar aulas porque estavam “doentes”. Resultado: aulas presenciais canceladas.

- Em Chicago, o sindicato não aceita sequer discutir com as autoridades locais a volta das aulas presenciais.

- No distrito de Fairfaix, na Virginia, o sindicato já se posicionou oficialmente para que escolas públicas só voltem às aulas presenciais em agosto de 2021. Sim, estão sem aulas presenciais desde março de 2020.

 

Casos assim têm se repetido por todo o país. A diferença é que, embora extorquidos como nós, os americanos têm algumas opções quanto ao que fazer com os filhos. Por exemplo, existem escolas  charter, que são públicas, mas gerenciadas por organizações privadas. Nessas escolas, a maioria dos professores não é sindicalizada — por isso, os sindicatos e os burocratas criam toda sorte de dificuldade para sua existência. 

 

Menos acessíveis, mas ainda assim uma opção, são as escolas privadas. Elas têm muito mais autonomia em relação aos governos estaduais e seus professores também não são sindicalizados. (Aliás, em alguns estados, os professores das escolas privadas não precisam nem ser certificados.) Devido à sua autonomia em relação aos sindicatos, e aos incentivos para servir a quem as mantém vivas — os estudantes e suas famílias — têm buscado desde o início, alternativas para atendê-los de forma segura. Em Chicago, por exemplo, onde o sindicato se nega a discutir com as autoridades, mais de 100 escolas privadas estão funcionando normalmente.

 

O Homeschooling, que é legalizado em todos os estados americanos, tem se tornado uma opção cada vez mais comum, seja na sua forma tradicional, ou em alguma forma híbrida. Neste momento em que sindicatos impedem a prestação de serviços de escolas públicas tradicionais, pais cujos filhos estão desatendidos podem simplesmente desmatriculá-los das escolas, registrá-los como homeschoolers, juntar com um grupo de vizinhos, contratar um ou dois professores e tocar a vida. Milhões de americanos estão fazendo isto.

 

E, ao lado de tudo isso, há mobilização: think tanks e outras organizações civis pressionam para que os estados financiem os estudantes e não as escolas. Ou seja, que haja o que eles chamam de Education Choice. Nos estados onde isso já acontece, famílias usam esses recursos com os provedores educacionais de sua escolha: pagam escolas privadas, contratam professores particulares, compram currículos e materiais didáticos para Homeschooling, contratam especialistas (no caso de crianças com necessidades especiais), etc.

 

Os americanos já entenderam que oferecer concorrência às escolas públicas tradicionais através do financiamento dos estudantes é a única maneira de garantir que os recursos da educação, pagos pelos cidadão, sirvam a eles e não à rataria sindical. É isso que eles estão fazendo nos Estados Unidos. O jogo é duríssimo, mas eles estão encarando. 

 

Voltando ao Brasil: sem enfraquecer os sindicatos financeiramente, nenhum governo, por mais conservador que se pretenda ser, vai conseguir mudanças significativas na educação. Provas mais do que claras já foram dadas pelo nosso governo atual. Vou dar dois exemplos trágicos. Primeiro, com a desastrosa  aprovação do novo Fundeb — celebrada por Bolsonaro! — que vai fortalecer enormemente os cofres dos sindicatos docentes. Segundo, com a substituição de Ilona Becskeházy, que vinha fazendo uma gestão tecnicamente primorosa e começando a ameaçar os grupos de interesses que sempre foram atendidos. Sem qualquer pudor, o governo Bolsonaro, através do seu ministro Milton Ribeiro, a substituiu por uma pessoa simpática aos burocratas, sindicatos e ONGs “amiguinhas”. Ou seja, garantiu que não haja constrangimentos ou cortes — como Ilona já vinha fazendo — em uma série de projetos sem utilidade educacional que garantiam recursos e poder a esses grupos. Diante disso, não duvido que, em algum momento, o próprio Carlos Nadalim, que tem feito um trabalho excelente, seja tirado da Sealf pra acomodar interesses.

 

O que fazer?

 

Precisamos eleger gestores e, principalmente, legisladores que ajudem a nos livrar das garras dos sindicatos encastelados nas secretarias de educação. Precisamos de pessoas que defendam escolhas educacionais, como a regulamentação do Homeschooling, escolas charter schools e alguma forma de financiamento direto dos estudantes, através de vouchers, por exemplo.

 

Já seria um grande avanço.

Por
Anamaria Camargo

Mestre em Educação pela Universidade de Hull, programa no qual atuou como professora durante nove anos. Consultora e ativista em prol de políticas educacionais liberais. Autora de livros e artigos sobre Educação e Liberalismo.